and foolish.

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Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão? Bem, era uma manhã estranha e totalmente abafada. Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram: 6:10h. Mônica, ao contrário, acordou na madrugada entusiasmada, se espreguiçando feito um gato. Ele suspirou fundo, enfiou a cara no travesseiro e percebeu que estava todo nojento de suor. Enfiou o corpo de baixo do chuveiro gelado e de alívio; suspirou. Sentiu-se fresco, mas também uma preguiça incomunal de se vestir, só pegando uma cueca de listras azuis e meias soquetes brancas. Ela cantou no chuveiro mais desafinada que um violão estragado e vestiu bota e camiseta de botão. Eduardo caminhou pela casa, ligou a tevê, tomou o café de ontem e comeu um pão com manteiga que a mãe fez e a mulher, vendo que já era tarde, gritou pra ele se apressar. Mônica tomava um conhaque no outro canto da cidade (como eles disseram) e batia papo com um bêbado mal cheiroso. Ele botou calça jeans, camiseta do uniforme – “E que saco de uniforme!” pensou ele -, seus tênis imundos e apanhou sua mochila. Ela, vendo o horário, correu para o seu fusquinha e dirigiu pra faculdade. Eduardo ssistiu aulas chatas e insuportáveis, depois Português e História e também dormiu todo o intervalo sobre o livro de Inglês. Mônica discutiu com o professor de Biologia, jogou um caderno numa amiga e saiu pra tomar um ar. Ele acordou desesperado com o sinal batendo na orelha e depois de algumas horas estava em casa; ela quebrava a cabeça em exercícios de sei-lá-o-quê. Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer, ainda nesse mesmo dia estranho e totalmente abafado. A mulher ia ler no parque e o menino ia jogar Nintendo com um amigo. Tropeçaram um nos pés dos outros, pediram muitas desculpas e Eduardo, impressionado com a beleza (olhos comuns, mas escuros e fundos, cabelo repicado, mas longo e bem negros, sardas, nariz arrebitado e curvas mais do que bem postas) dela, se ofereceu pra ajuda-la a levantar. “Eu não costumo ser distraída assim” – Mônica disse, mas era uma total mentira, porque ela vivia no mundo da Lua, viajando sobre espaços imaginários e refletindo sobre nada, porém tudo. E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer. No meio da rua, eles discutiram guerra, filme e filosofia – e nesse meio tempo, um baixinho, uma velhota e um vizinho os xingou. Nem se incomodaram, sentaram na calçada e riram de toda a situação. Querendo vê-la de novo, ele pensou. Um carinha do cursinho do Eduardo que disse: “Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”. Combinaram a onde e quando se encontrar, então os dois aceitaram e foram pra casa sorrindo feito patetas.

Depois de alguns dias, algumas horas e dois minutos lá estavam eles. Festa estranha, com gente esquisita
“Eu não tô legal, não agüento mais birita” – disse Eduardo, com vontade de vomitar. E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais sobre o boyzinho que tentava impressionar. Perguntou sobre música e carne, E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa: “É quase duas, eu vou me ferrar”. Deu um abraço desajeitado nela e um soco nos amigos (que enchiam o saco da morena e também irritavam o coitado). Eduardo e Mônica trocaram telefone, e seguiram os seus caminhos. Ele se jogou na cama e depois queria morrer quando expulsou todo o álcool do seu corpo, durante a noite. Ela madrugou também, só que rabiscando a parede e também o chão, com giz de cera. Depois telefonaram e decidiram se encontrar, Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard. No fim, desistiram dos dois: se encontraram então no parque da cidade. A Mônica de moto e o Eduardo de “camelo”, e o Eduardo achou estranho, e melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo. Ela tinha pintado uma mesa de verde e ele tinha sofrido com a ressaca da noite anterior.

Conversaram muito e ainda mais depois. Eduardo e Mônica eram nada parecidos. Ela era de Leão e ele tinha dezesseis. Ela fazia Medicina e falava alemão, e ele ainda nas aulinhas de inglês. Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. E o Eduardo gostava de novela e jogava futebol-de-botão com seu avô. Tinham outras coisas e mais coisas, mas eles nem ligavam. Discutiam sobre tudo e sobre nada, não fazia mal. Alguma coisa neles os prendiam e ele a achava interessante, linda e muito mulher pra ele. Ela gostava do jeito que ele enrrugava o nariz enquanto ria e o modo que expunha a sua opinião, e mesmo pela idade, um homem pra ela.

Ela falava coisas sobre o Planalto Central, também magia e meditação. E o Eduardo ainda tava no esquema escola-cinema-clube-televisão. E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia, como tinha de ser. Iam pra festas, pra parques, pra sofás, pra cafeterias, pra pontes, pra tudo quanto é lugar e se divertiam. Mônica deixou o babaca do seu ex de lado e olhava agora pros lábios do menino que achava ela de mais. Passou certo tempo, não muito tempo, eles se beijaram e ele explodiu em alegria: a mulher era mesmo tudo que ele queria. Ela cheirava a livros novos e Eduardo tinha gosto de limão. Mais do que nunca, eram felizes, sorridentes e alegres e não queriam se desgrudar de jeito nenhum. Ele cresceu 4 centímetros e ela parou de pintar os dedos do pé de vermelho. Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato, e foram viajar. Machu Pichu, Maranhão, Nova Iorque ou Rio de Janeiro, tanto faz. A Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. E ele contava pra ela sobre as pescarias com o pai.

Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar (não!). Errou ao usar meia branca com sapato social, mas acertou ao escolher Publicidade. E ela se formou no mesmo mês que ele passou no vestibular. Mônica aprendeu a andar de salto, começou a usar batom e se tornou uma grande médica. Errou ao fazer piadas infames na frente da sogra, mas acertou ao dar de presente à ela um Carrier Terrier. E os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois. Às vezes era sobre a cor da parede, outras sobre o estresse dela, e na verdade, praticamente qualquer coisinha idiota que era resolvida com um beijo de um idiota “cala a boca”. E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz. Os amigos se davam bem, e os pais aprenderam a se gostar. Se casaram no quintal da tia de Eduardo e Mônica entrou agarrada do braço do pai vestida de azul e ele sentiu que era o homem mais sortudo do universo.

Construíram uma casa há uns dois anos atrás, mais ou menos quando os gêmeos vieram. Era um sobrado amarelo, cheio de flores e com três banheiros e os seus filhos se chamavam Aline e Lucas. Aline era quieta, sorridente igualzinha ao pai. Já Lucas era uma peste linda e a cara da mãe. Batalharam grana, seguraram legal a barra mais pesada que tiveram. Não foi fácil, suaram e ralaram, mas é claro que valeu a pena: Mônica teve olheiras de panda e Eduardo quase um colapse de estresse. Respiraram fundo, fizeram um empréstimo e contrataram uma babá. O caminho deles foi trabalho-casa durante algum doloroso tempo, mas quitaram as dívidas, ajudavam os filhos a fazer o dever de casa e conseguiam ir pra praia às vezes. Sorriam e choraram, queriam desistir, mas nunca tiveram a dúvida do amor. Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília e a nossa amizade dá saudade no verão. Naquele tempo que corríamos nas praias e tocávamos violão no bar da esquina virando algumas biritas, era só festa e farra, totalmente diferente de agora Contas pra pagar e filhos pra cuidar não devem ser fáceis não.. Só que nessas férias, não vão viajar, porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação. E quem um dia irá dizer, que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?